O meu último trago teve o gosto mais amargo de todos. Não o amargo costumeiro e precioso dos vinhos tintos. Também não me trouxe as evocações e as magníficas sensações que as refinadas essências tinham por hábito me brindar. O meu último trago teve o gosto amargo da Morte.
O meu último trago me libertou de todos os problemas, angústias e ansiedades – e me libertou também daqueles que amo.
O meu último trago não foi às escondidas, como os outros normalmente eram. O meu último trago foi público, fotografado, televisionado, radiodifundido.
Junto do meu último trago, como uma pílula, engoli a minha bússola.
O meu último trago expôs a imensa fratura que há bem no meio de mim.
Estilhaços e cacos começaram a despencar de mim. E de casebre passei a tapera.
E no topo da Miséria e do Desespero, mijei os pingos restantes da minha dignidade, junto da espuma fedorenta da cerveja.
Olhei por um instante ainda em volta, chorei, deitei e morri. Num dia já de morte, matei e fui morto por mim mesmo.
Velaram então, com um luto imerecido, um cadáver incômodo, num féretro bizarro.
Ali jaz agora o rascunho canhoto do que era para ser um homem.
Sou um alcoólatra.
(29/11/2010)
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